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Fluxo Oculto: fintech apontada como 'duto financeiro' da máfia do nafta movimentou R$ 1,2 bilhão
28-05-2026 13:31

Operação Carbono Oculto: segunda fase mira novo esquema de lavagem de dinheiro do PCC
Uma fintech apontada como um dos principais "dutos financeiros" no esquema do Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro da sonegação de impostos no setor de combustíveis movimentou R$ 1,2 bilhão, segundo investigação do Ministério Público de São Paulo.
A Smart Solutions estava entre os alvos nesta quinta-feira (28) da Operação Fluxo Oculto, que é uma continuação da Operação Carbono Oculto, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal para apurar a chamada "máfia do nafta".
Foram cumpridos cerca de 60 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Segundo o Gaeco, a Smart Solutions fazia parte de um sofisticado sistema de movimentação financeira usado para ocultar a origem do dinheiro, dificultar o rastreamento bancário e blindar patrimônios ligados à organização criminosa.
Entre 2022 e 2025, somente com o BK BANK as operações chegaram a R$ 1,2 bilhão.
Em nota, a defesa do BK BANK afirmou que nem a empresa, "tampouco quaisquer de seus gestores, foram alvo de mandados de busca e apreensão ou de qualquer medida executada na operação". 🔎 O esquema funcionava por meio de fintechs e instituições de pagamento usadas como intermediárias para movimentar dinheiro de dezenas de empresas investigadas, especialmente ligadas ao setor de combustíveis. Uma dessas empresas é a própria Smart Solutions, criada em 19 de junho de 2020.
Os sócios da fintech são alvo da investigação, sendo eles: Renato de Souza Elbert, Juliana de Almeida Martins, Mauricio Paulo Matalon, Muriel Matalon e Michele Matalon. A sede da empresa, segundo as informações cadastrais, estaria localizada na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, área nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
O g1 tenta localizar a defesa da fintech. A investigação aponta que a principal beneficiária das operações realizadas pela Smart Solutions foi a GGX Global, empresa ligada à rede de postos de combustíveis investigada na operação Carbono Oculto.
Segundo o MP, a GGX movimentou cerca de R$ 500 milhões dentro da estrutura financeira monitorada. Os promotores afirmam que o grupo utilizava um modelo conhecido como “contas bolsão”.
Na prática, recursos de diferentes clientes eram concentrados em contas registradas em nome das próprias fintechs.
Externamente, as transações apareciam apenas vinculadas à instituição financeira, enquanto os reais destinatários ficavam ocultos nos sistemas internos das empresas. Segundo os investigadores, isso criava múltiplas “camadas de ocultação” e dificultava identificar quem enviava e quem recebia o dinheiro. Além da Smart Solutions e do BK BANK, os investigadores identificaram outras fintechs operando dentro da mesma engrenagem financeira.
Entre elas estão CEOPAG, America Payment, SISPAY, VPAY, YAW e SAFE SOLUTIONS. O Ministério Público afirma que essas instituições compartilhavam clientes, fluxos financeiros e estruturas operacionais ligadas ao grupo investigado. Os promotores afirmam ainda que parte das fintechs investigadas teria flexibilizado mecanismos internos de controle para ampliar a carteira de clientes, mesmo diante de indícios de irregularidades. De acordo com o relatório do Gaeco, algumas instituições de pagamento atuavam com “arrefecimento dos sistemas de controle internos” e permitiam a contratação de clientes sem procedimentos adequados de compliance e verificação de identidade, conhecidos no mercado financeiro como “Know Your Customer” (KYC). Para os investigadores, essa prática teria ocorrido “como forma de expandir o negócio de maneira acrítica e irresponsável, o lucro pelo lucro”, em um modelo que o Ministério Público compara ao conceito de “cegueira deliberada” — quando empresas ignoram conscientemente sinais de atividades ilícitas para manter operações lucrativas. Para os promotores, o caso revela uma nova fase da infiltração do crime organizado no sistema financeiro.
O relatório afirma que as fintechs passaram a funcionar como “dutos financeiros” de organizações criminosas, permitindo a circulação de grandes quantias sem os mesmos mecanismos de controle exigidos de bancos tradicionais. Em alguns casos, segundo o Gaeco, as empresas apresentavam estruturas societárias consideradas incompatíveis com os valores movimentados, incluindo uso de “laranjas”, sedes modestas e sócios com baixa capacidade financeira aparente. Os investigadores afirmam que o acesso às chamadas “contas gráficas” — os registros internos das fintechs — é considerado essencial para rastrear o caminho do dinheiro e identificar os verdadeiros destinatários dos recursos. Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. Divulgação/MP-SP LEIA MAIS: PERFIL: Quem são 'Beto Louco' e 'Primo', acusados de comandar esquema bilionário do PCC no setor de combustíveis MP aponta que fintechs da Faria Lima continuaram ocultando dinheiro do crime organizado em SP; movimentaçãos chegam a R$ 26 bilhões Como o PCC aparece no esquema O PCC aparece na investigação como beneficiário indireto das movimentações fiinanceiras, integrante do mesmo ecossistema financeiro ilegal, usuário das mesmas fintechs para lavagem, ocultação de recursos e circulação de dinheiro ilegal. Isso é o que o MP chama de: “convergência criminal” (compartilhamento de estrutura entre grupos). Instituições usadas pelo grupo também atendem PCC: SISPAY / VPAY: têm histórico de fraudes e vínculos com PCC) Empresas do esquema movimentam dinheiro ligado ao PCC: fluxos financeiros identificados entre fintechs, empresas do grupo e estruturas associadas ao PCC Conexão direta por pessoas: Ricardo Romano, apontado como ligado ao PCC dentro da estrutura financeira. Delação rejeitada A investigação mostrou que o esquema, liderado por Mohamad Hussein Mourad (o "Primo") e Roberto Augusto Leme da Silva (o "Beto Louco") manteve a lavagem de dinheiro por meio de fintechs, alterando empresas e quadros societários para continuar ocultando patrimônio da adulteração de combustíveis e sonegação de impostos, e mantendo conexões com o PCC. Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, mas em decorrência da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto. Eles tentaram fechar um acordo de delação premiada com o MP de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores.
Para o MP, os empresários omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões do esquema com o PCC e corrupção policial. Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 4 bilhões e que o uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo. Sobre a operação desta quinta, a defesa dos empresários disse que não vai se manifestar porque ainda não tomou conhecimento da investigação. Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco" Montagem g1/Reprodução/Redes sociais/Polícia Civil LEIA TAMBÉM: Quem são 'Beto Louco' e 'Primo', acusados de comandar esquema bilionário do PCC no setor de combustíveis Máfia do nafta Em outras duas frentes de atuação na operação de desta quinta-feira, os agentes cumprem mandados contra empresas e pessoas que atuavam na "máfia do nafta" e adulteração de combustíveis. O grupo usava empresas de solventes petroquímicos importados, que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva. O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária contabilizada. Esta fase está dividida em três frentes.
Veja abaixo. FRENTE 1: Engenharia financeira e lavagem de capitais via fintechs Esta frente atua como o "duto financeiro" da organização criminosa liderada por "Primo" e "Beto Louco", viabilizando a ocultação do patrimônio bilionário e mantendo conexões com o PCC. Modus Operandi: O grupo usa instituições de pagamento para lavar dinheiro, valendo-se do modelo de "contas-bolsão" e "contas gráficas".
Os recursos de dezenas de postos de combustíveis da organização são depositados em uma única conta bancária sob o CNPJ da fintech ("conta-bolsão"). A separação de quem é o dono do dinheiro ocorre apenas no sistema interno da fintech ("conta gráfica"), criando um ponto cego (camada de ocultação) que impede o Banco Central e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de rastrearem a origem, o destino e os reais titulares dos recursos.
Quando o esquema sofre fiscalização, a organização migra rapidamente os recursos de uma fintech para outra. Pessoas e Empresas Envolvidas: Lideranças e Operadores: Mohamad Hussein Mourad e "Beto Louco" (líderes), Lucas Tomé Assunção (gerente contábil do grupo). Fintechs e seus Gestores: BK Bank, Ceopag (ligada a Kawel Rodrigo Lotti), Sispay (Marcelo Artur Motta Ramos Marques e Vera Lucia Teixeira), Vpay, Yaw e Smart Solutions Group. Conexões com o PCC: A Yaw interligou-se ao esquema via Shelby Holdings, empresa atrelada a Ricardo Romano (investigado por ligações com o PCC).
A Sispay revelou vínculos com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores contra a máfia dos ônibus ligada à mesma facção. Valores Movimentados: A Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade unicamente para a GGX Global (holding de postos do grupo criminoso). A Ceopag registrou movimentações atípicas em curtíssimo prazo de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos. No total consolidado, relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas de sujeitos obrigados na ordem de R$ 3,86 bilhões. FRENTE 2: A máfia do nafta e adulteração de combustíveis Esta frente expõe a fraude física e tributária: o desvio de solventes petroquímicos importados (NAFTA), que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva. Modus Operandi: Produtoras e importadoras de solventes emitem milhares de notas fiscais falsas ("espelho") atestando a venda de Nafta para empresas químicas de fachada.
Essas falsas indústrias químicas são registradas em nome de "laranjas" (frequentemente pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais) em endereços fictícios. Na realidade, o produto físico nunca chega a essas empresas; os caminhões desviam a rota e descarregam o Nafta diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente é misturado à Gasolina Tipo A.
O combustível adulterado é, então, revendido aos consumidores finais nos postos. Pessoas e Empresas Envolvidas: Núcleo de Comando e Produtoras: Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi (titulares e gestores de fato da produtora Petrodansk), auxiliados por João Eduardo de Albuquerque (gestor operacional).
A empresa SMAX também emite notas para a fraude. Logística e Laranjas: Ítalo Giovanni Bergamo (coordenador do recrutamento de laranjas e emissão de conhecimentos de transporte), Igor de Souza Amorim e Gilmar Amorim (logística).
Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira atuaram abrindo dezenas de empresas de fachada (como MGK, Zurk, Kore Transportes). Distribuidoras e Terminais (Destino real): Distribuidora Saara, Petroriente Distribuidora e os terminais terrestres Tercom (Paulínia) e Arujá Terminais. Valores e Volumes Identificados: Desvio comprovado de mais de 135 milhões de litros de Nafta em pouco mais de dois anos. Apenas a Petrodansk emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão. O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária auferida. FRENTE 3: Ocultação patrimonial via fundos de investimentos (FIDCs) Como complemento direto da Máfia do NAFTA, o grupo utiliza o mercado financeiro formal para liquidar as operações fraudulentas e mascarar os beneficiários do lucro da adulteração. Modus Operandi: Para que o dinheiro da gasolina adulterada retorne de forma "limpa" para as produtoras (Petrodansk/SMAX), as empresas-fantasma emitem boletos.
Quem paga esses boletos são Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP).
Contudo, as cessões ocorrem sem deságio (sem desconto) e com prazos curtíssimos (às vezes de 1 dia), o que subverte a lógica do mercado financeiro e prova que a transação é fictícia. Esses fundos são "fechados", possuindo apenas um ou dois cotistas, funcionando exclusivamente como uma camada final de lavagem de dinheiro (layering) para pagar faturas ilícitas. Pessoas e Empresas Envolvidas: Fundos: Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global. Gestores/Beneficiários: Guilherme Mourão Vaz (Diretor da Actual DTVM/Gran Capital), Edward Bertelli Júnior (Libertas Asset), Luis Roberto Zaratin Soares (Ello Gestora).
Na ponta dos beneficiários, figuram Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior (que operam a Nova Rubília Instituição de Pagamento e a distribuidora Saara), e Guilherme Ali de Paula (Pix Card / Atena FIP). 👉 A defesa deles não foi localizada. Valores Identificados: Para o bloqueio de bens (confisco), a operação mirou o patrimônio líquido dos fundos que serviam de duto: R$ 85 milhões (Zeus), R$ 72 milhões (Gran Capital) e R$ 47 milhões (DB Crédito Global).
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