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Toxicomanias, vícios, dependências: o que a psicanálise tem a dizer?

  • 18-02-2026 20:12


  • Quando pensamos sobre o uso abusivo de entorpecentes, vários termos aparecem na literatura médico-psiquiátrica para defini-lo: vícios, dependências.

    Desse modo, faz-se importante traçarmos uma diferença entre o uso recreativo, pontual, regulado, com fins religiosos e de auto-conhecimento, para o abuso das substâncias, que se coloca no campo do excesso, do excesso de gozo.

    Os vícios se referem a um comportamento prejudicial, a um hábito repetitivo, a uma mania, a qual o sujeito refere não ter controle sobre. Assim, o termo toxicomania foi consolidado no vocabulário médico-europeu no século XIX para designar os sujeitos que tem mania – loucura, obsessão, impulso – pelo uso de substâncias entorpecentes.

    E o que a psicanálise tem a dizer sobre isso? Ainda que as primeiras referências freudianas sobre o entorpecentes em suas publicações datem de 1897, Freud inicia suas pesquisas em 1883, após a leitura de um artigo de Aschenbrandt que descreve o efeito da cocaína em soldados.

    Em 1885, Freud escreve um artigo intitulado Über Coca, em que realiza um estudo aprofundado acerca da história da utilização da cocaína na América do Sul, sua difusão na Europa ocidental, seus efeitos sobre homens e animais e suas utilizações terapêuticas.

    Nessa publicação, Freud descreve como as drogas podem funcionar como estimulante, ao aumentar a capacidade física do corpo por um determinado e curto tempo, e também como podem ser utilizadas no tratamento de distúrbios digestivos, como afrodisíaco ou para aliviar os sintomas da abstinência da morfina. Freud se propõe a investigar os efeitos da ação da cocaína sobre os sujeitos segundo um aspecto dinâmico e econômico.

    Entretanto, ao longo da sua pesquisa, constatou que os sintomas subjetivos dos efeitos da cocaína são diferentes para cada pessoa. Assim, se para algumas pessoas o uso regulado de cocaína demonstrou sucesso em relação aos efeitos terapêuticos analgésicos e anestésicos, para outros demonstrou o seu fracasso, pois conduzia ao vício, aos efeitos de intoxicação e até mesmo ao apagamento do inconsciente.

    Desse modo, ainda que, para Freud, o recurso à substância se coloque como uma automedicação para sujeitos cuja libido permaneceu fixada numa fase autoerótica (Olivenstein, 1985) - o que evidencia uma perturbação na fusão entre pulsão e fantasia em determinado momento da constituição psíquica -, essa saída pode conduzir ao pior.

    Conforme assegurava Freud, a função da intoxicação aponta para algo mais além do princípio do prazer, além da satisfação.

    Segundo o autor, no texto “O mal-estar na civilização”, os entorpecentes se colocam como um amortecedores de preocupações, uma busca por uma pacificação diante do mal-estar próprio da civilização.

    Contudo, o uso de narcóticos como uma medida paliativa, tem um custo: “uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se-nos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo seu próprio castigo” (Freud, [1930] 1996, p.

    85).

    A partir desse texto, a dimensão social do recurso às substâncias se torna evidente.

    Para a psicanálise a dependência patologia é uma forma de autoterapia, ou seja, uma tentativa de tratamento “para lidar com algo insuportável que atravessa a sua existência” (Cosenza, 2025, p.30).

    Todavia, também é uma autoterapia mortífera, pois está a serviço do supereu sádico “que ordena ao sujeito que goze da substância, sem limites” (ibidem, p.31). Assim, a concepção da droga como pharmakon, conceito estabelecido na Grécia antiga, que tem um significado duplo e ambíguo, na medida em que designa ao mesmo tempo remédio e veneno, permanece atual.

    A droga pode ser benéfica ou maléfica, de acordo com a dose, o uso e a sua função: pode operar como um medicamento, promovendo uma regulação ou apaziguamento do gozo, bem como pode funcionar como um veneno, nocivo, tóxico, podendo mesmo levar a efeitos catastróficos, como a morte.

    Cabe, então, a psicanálise pensar e propor tratamentos que considerem a função da droga para cada sujeito, a fim de resgatar a subjetividade inconsciente excluída, ou construir novas soluções mais eficazes e duradouras, e menos danosas, do que aquelas alcançadas com a droga; para que, enfim, esses sujeitos possam passar do gozo da droga ao gozo da palavra. Saiba mais em: https://www.institutoespe.com.br/post/toxicomania-sintomas-contemporaneos .


    Fonte: G1